13/09/2026 · 20 min de leitura
Missa Tridentina x Missa Nova: diferenças entre Pio V e Paulo VI
“A comparação entre a Missa Tridentina e a Missa Nova, desde as orações ao pé do altar até o último Evangelho, revela uma reforma muito maior do que a simples adoção da língua vernácula.”
Comparar a Missa chamada Tridentina com a Missa promulgada por Paulo VI exige mais honestidade do que geralmente se encontra nas discussões litúrgicas. De um lado, não é correto afirmar que a Missa Nova deixou de ser católica ou que, celebrada segundo a intenção da Igreja e com matéria, forma e ministro válidos, não realiza o verdadeiro Sacrifício eucarístico; a própria constituição Missale Romanum, de Paulo VI, apresenta o novo missal como instrumento para a celebração do Sacrifício da Eucaristia, e a Igreja continuou ensinando a Presença Real, a transubstanciação e a identidade sacramental entre o Sacrifício do altar e o Sacrifício da Cruz. De outro lado, também não é honesto reduzir as diferenças a uma questão de idioma, como se a antiga Missa tivesse simplesmente sido traduzida do latim para as línguas modernas. O que aconteceu entre o Missal Romano de 1962 e o novo Ordo Missae, introduzido em 1969 e publicado em sua primeira edição típica em 1970, foi uma reconstrução extensa da celebração: orações seculares desapareceram, outras foram abreviadas, novas fórmulas foram compostas, o lecionário foi reorganizado, o calendário foi profundamente revisto, os gestos do sacerdote foram reduzidos, o Cânon Romano deixou de ser a única oração consagratória e a relação visível entre sacerdote, altar e assembleia recebeu uma configuração diferente. As duas celebrações conservam elementos fundamentais — leituras, Credo, apresentação das oblatas, consagração, Comunhão e despedida —, mas a experiência religiosa produzida pelo conjunto de palavras, silêncios, posições e gestos não é a mesma. Na Missa tradicional, o fiel é conduzido a contemplar uma ação sagrada que se realiza diante de Deus e à qual ele se une interiormente; na forma nova, a celebração é estruturada de maneira mais dialogada, audível e comunitária. A questão deste artigo, portanto, não é apenas se ambas são juridicamente aprovadas, mas se a segunda cresceu organicamente da primeira ou se representa uma substituição planejada de sua forma ritual.
É preciso começar desfazendo um equívoco histórico: São Pio V não inventou a Missa Tridentina depois do Concílio de Trento. O missal promulgado em 1570 foi preparado por uma comissão, mas seu trabalho consistiu fundamentalmente em corrigir, restaurar e uniformizar o uso romano que já existia. A constituição Quo primum declara que os responsáveis compararam códices antigos da Biblioteca Vaticana, manuscritos conservados em outros lugares e escritos de autores reconhecidos, procurando restaurar o Missal segundo o rito dos Santos Padres. O missal impresso em 1570 reproduzia, sem alterações estruturais radicais, o Missal da Cúria Romana difundido anteriormente pelos franciscanos; aproximava-se da edição romana impressa em 1474, que, por sua vez, correspondia em grande parte a manuscritos medievais anteriores. Suas diferentes partes haviam amadurecido ao longo dos séculos: o núcleo do Cânon Romano remonta à Antiguidade cristã; o Kyrie, o Gloria, as coletas, o canto do Intróito e várias partes da liturgia da Palavra foram incorporados ou estabilizados nos primeiros séculos; as orações privadas do sacerdote, o Ofertório e as preparações para a Comunhão cresceram durante a Idade Média; e o último Evangelho passou gradualmente de devoção sacerdotal para parte integrante do rito. Pio V não reuniu especialistas para substituir esse edifício por uma nova composição. Ele recebeu uma liturgia formada pela oração de muitas gerações, retirou variações recentes consideradas inadequadas e lhe conferiu uma edição uniforme. Além disso, preservou os ritos legítimos que possuíam mais de duzentos anos, como os usos dominicano, cartuxo, ambrosiano e outros. Depois de 1570 houve revisões, novos santos, modificações de rubricas e reformas importantes, especialmente na Semana Santa, mas o Ordinário da Missa permaneceu reconhecível. É nesse sentido que se fala em desenvolvimento orgânico: o rito mudou como uma árvore que cresce conservando sua identidade, e não como um edifício demolido para que outro, projetado por uma comissão, ocupasse o mesmo terreno.
Essa diferença de método torna-se visível logo no início da celebração. Na Missa tradicional, o sacerdote não começa imediatamente junto ao altar, saudando a assembleia. Ele permanece aos pés dos degraus e declara: Introibo ad altare Dei — “Subirei ao altar de Deus”. O salmo Judica me, com seu pedido para ser conduzido ao altar santo, estabelece uma peregrinação espiritual: o sacerdote ainda não chegou simbolicamente ao lugar do Sacrifício e reconhece que precisa ser purificado antes de subir. Seguem-se o Confiteor do sacerdote, a resposta dos ministros, o Confiteor destes e as súplicas Misereatur e Indulgentiam. Somente depois o celebrante sobe os degraus, rezando Aufer a nobis, para que Deus retire suas iniquidades e lhe permita entrar no Santo dos Santos; ao beijar o altar, pede pelos méritos dos santos cujas relíquias tradicionalmente estão depositadas nele. No Missal de Paulo VI, todo esse conjunto foi retirado. A Missa começa com o sacerdote já no presbitério, diante da assembleia, fazendo o sinal da cruz, saudando o povo e conduzindo um ato penitencial comum, que pode assumir diferentes fórmulas. O Confiteor permaneceu como uma dessas possibilidades, mas abreviado e recitado simultaneamente por todos; desapareceram o salmo 42, a distinção entre a confissão do sacerdote e a dos ministros, a súplica Indulgentiam, a subida ritual ao altar e as antigas orações que a acompanhavam. A reforma pode ser defendida como simplificação, mas seu efeito simbólico é evidente: a Missa antiga dramatiza a indignidade do homem que se aproxima do lugar santo para oferecer o Sacrifício; a nova forma começa enfatizando a reunião da comunidade já constituída para celebrar. Não se trata de dizer que a penitência desapareceu da Missa Nova, mas de reconhecer que sua expressão foi consideravelmente abreviada e que a antiga progressão espiritual — do mundo, passando pela purificação, até o altar de Deus — deixou de estruturar o início da celebração.
Depois das orações preparatórias, as diferenças continuam na Missa dos Catecúmenos, hoje chamada Liturgia da Palavra. Na forma tradicional, o sacerdote lê o Intróito no altar; o Kyrie conserva normalmente suas nove invocações; seguem-se o Gloria, quando previsto, a coleta, a Epístola, o Gradual, o Aleluia ou Trato e o Evangelho, proclamado depois da oração Munda cor meum, na qual o celebrante pede que seus lábios sejam purificados como os do profeta Isaías. O antigo rito também possuía graus bem definidos de celebração: a Missa lecta, ou Missa rezada, sem canto; a Missa cantata, celebrada com canto, mas sem diácono e subdiácono; a Missa solemnis, com sacerdote, diácono, subdiácono, incenso e maior aparato cerimonial; e a Missa pontifical, presidida por um bispo segundo o cerimonial próprio, com ministros, assistentes e insígnias episcopais. Não eram ritos diferentes, mas graus rituais de uma mesma Missa. No novo missal, essa antiga classificação deixou de organizar juridicamente as celebrações: a Instrução Geral distingue principalmente a Missa com o povo, a concelebrada e aquela com a participação de um só ministro. Continuam existindo celebrações cantadas, mais solenes e presididas por bispos, mas elas não correspondem exatamente às antigas categorias. Também é falso dizer que os leigos não participavam da Missa tradicional. Participavam pelas respostas, especialmente nas Missas dialogadas, pelo canto do Ordinário — Kyrie, Gloria, Credo, Sanctus e Agnus Dei —, pelas funções da schola e dos coros, pelas posições corporais, pelo acompanhamento do missal, pela Comunhão sacramental e, principalmente, pela união interior ao Sacrifício oferecido pelo sacerdote. Pio XII, na encíclica Mediator Dei, elogiou os missais populares, as respostas e o canto dos fiéis, explicando que eles não deveriam permanecer como espectadores estranhos ou mudos; ensinou também que a participação ativa não se reduz a falar ou exercer uma função visível, mas consiste primeiramente em unir-se interiormente a Cristo e oferecer-se com Ele. O novo missal ampliou as leituras dominicais para um ciclo de três anos, introduziu normalmente uma leitura do Antigo Testamento, um salmo responsorial, uma leitura apostólica e o Evangelho, além de leitores leigos, oração universal e respostas mais frequentes. É preciso, porém, distinguir o missal das práticas que se generalizaram depois: o Concílio não aboliu o latim, mas determinou que fosse conservado nos ritos latinos; não proibiu o canto gregoriano; nem declarou a celebração voltada para o povo como única orientação possível. Entretanto, na aplicação concreta, o vernáculo substituiu quase inteiramente o latim, o sacerdote passou habitualmente a celebrar voltado para a assembleia e o altar foi frequentemente separado do sacrário.
Nenhuma parte anterior à consagração torna a mudança de linguagem tão perceptível quanto o Ofertório. No rito tradicional, o sacerdote oferece a hóstia ainda não consagrada dizendo: Suscipe, sancte Pater, omnipotens aeterne Deus, hanc immaculatam hostiam — “Recebei, ó Pai santo, Deus eterno e onipotente, esta hóstia imaculada” — por seus pecados, ofensas e negligências, por todos os presentes e por todos os fiéis cristãos vivos e mortos, para que lhes aproveite para a salvação eterna. Ao oferecer o cálice, chama-o de “cálice da salvação” e pede que suba diante da divina majestade em odor de suavidade. A mistura da água e do vinho recorda a admirável dignidade da natureza humana assumida por Cristo; seguem-se a oferta em espírito de humildade, a invocação ao Espírito Santo, a lavagem das mãos com parte do salmo 25 e a oração Suscipe, sancta Trinitas, que apresenta a oblação à Santíssima Trindade em memória da Paixão, Ressurreição e Ascensão de Cristo e em honra da Virgem Maria e dos santos. No Missal de Paulo VI, esse conjunto foi substituído principalmente pelas fórmulas “Bendito sejais, Senhor, Deus do universo”, inspiradas nas bênçãos judaicas sobre o pão e o vinho. Permaneceram, em forma breve, a oração da água e do vinho, o pedido de humildade, o Lava me e o Orate, fratres, mas foram retiradas as referências antecipadas à hóstia imaculada, ao cálice da salvação, aos pecados do sacerdote, aos fiéis vivos e mortos, à honra dos santos e à oferta dirigida à Santíssima Trindade. A doutrina do Sacrifício não desaparece do novo missal: ela se encontra na oração sobre as oferendas, no Orate, fratres e nas Orações Eucarísticas. Contudo, aquilo que antes era ensinado insistentemente durante toda a preparação das oblatas passa a depender da fórmula escolhida posteriormente. A mudança não é apenas verbal. O Ofertório tradicional contempla pão e vinho à luz da Vítima que serão pela consagração; a nova Preparação dos Dons prefere começar pelos frutos da criação e do trabalho humano que serão transformados. Uma linguagem é explicitamente sacrificial desde o início; a outra começa pela ação de graças e progride até o sacrifício.
No coração da Missa encontra-se a diferença mais importante. Durante muitos séculos, o Rito Romano conheceu uma única grande oração consagratória: o Cânon Romano, rezado em voz baixa, cercado por sinais da cruz, inclinações, ósculos do altar e genuflexões. Seu silêncio não significa ausência de participação; significa que o sacerdote entrou sacramentalmente no Santo dos Santos, enquanto os fiéis se unem à ação sagrada pela atenção, pela oração e pela contemplação. O Cânon nomeia a Igreja, o papa, o bispo, os vivos, a Virgem Maria, os Apóstolos, os mártires e os mortos; oferece a Deus uma vítima pura, santa e imaculada; pede que a oblação seja levada ao altar celeste e suplica que os participantes sejam associados aos santos, não por seus méritos, mas pela misericórdia divina. Paulo VI reconheceu na constituição Missale Romanum que a introdução de três novos cânones constituía a “maior inovação” do novo missal. O Cânon Romano foi preservado como Oração Eucarística I, com modificações e rubricas reduzidas, mas passou a concorrer com as Orações Eucarísticas II, III e IV; posteriormente foram autorizadas outras fórmulas para reconciliação, diversas necessidades e celebrações com crianças. A Oração Eucarística II, devido à sua brevidade, tornou-se muito frequente e, embora inspirada parcialmente na chamada Tradição Apostólica atribuída a Hipólito, não é a simples recuperação de uma anáfora antiga, mas uma composição moderna baseada em fontes antigas. A expressão Mysterium fidei foi retirada das palavras pronunciadas sobre o cálice e transformada em convite para uma aclamação dos fiéis; as palavras da instituição foram uniformizadas; a oração passou normalmente a ser proclamada em voz alta; e a assembleia recebeu novas respostas. A questão não é se essas orações podem consagrar validamente — podem —, mas o que acontece com a identidade ritual quando uma oração imemorial, antes inseparável da Missa romana, torna-se apenas uma opção entre várias, frequentemente preterida em favor da fórmula mais breve. A estabilidade cede lugar à escolha; o silêncio sagrado cede lugar à proclamação contínua; e numerosos gestos que protegiam e interpretavam corporalmente o mistério são reduzidos.
As diferenças prosseguem da consagração ao encerramento. Na Missa tradicional, somente o sacerdote proclama o Pai-Nosso, até Et ne nos inducas in tentationem, e o ministro responde Sed libera nos a malo. Em seguida, o sacerdote desenvolve esse último pedido no embolismo Libera nos, invocando a Virgem Maria, os Apóstolos e todos os santos. O trecho completo é: “Pater noster, qui es in caelis: sanctificetur nomen tuum: adveniat regnum tuum: fiat voluntas tua, sicut in caelo, et in terra. Panem nostrum quotidianum da nobis hodie: et dimitte nobis debita nostra, sicut et nos dimittimus debitoribus nostris. Et ne nos inducas in tentationem. R. Sed libera nos a malo. P. Amen. Libera nos, quaesumus, Domine, ab omnibus malis, praeteritis, praesentibus et futuris: et intercedente beata et gloriosa semper Virgine Dei Genitrice Maria, cum beatis Apostolis tuis Petro et Paulo, atque Andrea, et omnibus Sanctis, da propitius pacem in diebus nostris: ut, ope misericordiae tuae adiuti, et a peccato simus semper liberi, et ab omni perturbatione securi. Per eumdem Dominum nostrum Iesum Christum, Filium tuum. Qui tecum vivit et regnat in unitate Spiritus Sancti Deus. Per omnia saecula saeculorum. R. Amen.” Em português: “Pai nosso, que estais nos céus, santificado seja o vosso nome; venha a nós o vosso reino; seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje; perdoai-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores; e não nos deixeis cair em tentação. R. Mas livrai-nos do mal. P. Amém. Livrai-nos, Senhor, nós vos pedimos, de todos os males passados, presentes e futuros; e, pela intercessão da bem-aventurada e gloriosa sempre Virgem Maria, Mãe de Deus, dos vossos bem-aventurados Apóstolos Pedro e Paulo, André e de todos os Santos, dai-nos propício a paz em nossos dias, para que, ajudados pelo socorro da vossa misericórdia, sejamos sempre livres do pecado e seguros de toda perturbação. Pelo mesmo Jesus Cristo, vosso Filho, nosso Senhor, que convosco vive e reina na unidade do Espírito Santo, Deus, por todos os séculos dos séculos. Amém.” Na Missa Nova, toda a assembleia reza o Pai-Nosso, o embolismo foi abreviado, as invocações nominais da Virgem e dos santos desapareceram e acrescentou-se a doxologia proclamada pelo povo. No rito antigo, depois da fração da hóstia e do Agnus Dei, o celebrante comunga primeiro e somente depois apresenta a Hóstia aos fiéis com o Ecce Agnus Dei, ao qual se segue três vezes o Domine, non sum dignus. Após a Comunhão, o sacerdote reza o Placeat tibi, pede que o Sacrifício seja aceito pela Santíssima Trindade, concede a bênção e proclama o prólogo de São João — In principio erat Verbum — como último Evangelho. No novo rito desapareceram o Placeat tibi e o último Evangelho; a celebração termina com a oração depois da Comunhão, a bênção e a despedida.
Um ponto particularmente sensível é a presença de seis observadores protestantes durante os trabalhos do Consilium ad exsequendam Constitutionem de Sacra Liturgia, organismo encarregado de executar a reforma: Ronald C. D. Jasper, anglicano; Massey H. Shepherd Jr., episcopaliano; A. Raymond George, metodista; Friedrich-Wilhelm Künneth, luterano; Eugene L. Brand, luterano; e Max Thurian, reformado e membro da Comunidade de Taizé, que muitos anos depois seria ordenado sacerdote católico. É necessário formular essa informação com precisão. Eles não eram membros votantes do Consilium, não possuíam autoridade para aprovar os textos e não devem ser apresentados como os autores oficiais do Missal. Contudo, também não eram meros visitantes sem contato com o processo. Recebiam documentos, assistiam às sessões e, conforme o testemunho posterior do próprio Ronald Jasper, encontravam-se informalmente com peritos católicos, podendo apresentar comentários, críticas e sugestões; cabia aos responsáveis católicos decidir o que seria aproveitado. Portanto, existe fundamento documental para falar em consulta e envolvimento protestante, mas não para afirmar, sem ressalvas, que seis ministros protestantes “escreveram a Missa Nova”. É nesse contexto que Taizé precisa ser compreendida. Taizé não é propriamente um “rito luterano”, mas uma comunidade ecumênica de origem protestante reformada, fundada na França por Roger Schutz. Antes da promulgação do Missal de Paulo VI, a comunidade já utilizava uma Liturgia Eucarística de Taizé, composta em 1959 e publicada em inglês em 1962. Nela encontram-se numerosas características posteriormente familiares aos católicos: confissão comunitária no início, três leituras — Antigo Testamento, Epístola e Evangelho —, salmo responsorial, homilia seguida de silêncio, oração universal, apresentação processional do pão e do vinho, fórmulas breves sobre as oferendas, oração eucarística proclamada, diálogo do prefácio, Sanctus, epiclese, narrativa da instituição, memorial com resposta da comunidade e frequentes intervenções da assembleia. Havia ainda variedade de fórmulas e alternativas celebrativas. Nenhuma dessas semelhanças isoladamente prova cópia, pois várias possuem antecedentes antigos e pertencem ao patrimônio cristão comum. Entretanto, a combinação de tantos elementos, a cronologia — 1959 antes do Missal de 1969 — e a presença de Max Thurian entre os observadores constituem um conjunto de “coincidências” que merece investigação. Não provam plágio ou conspiração, mas tornam razoável perguntar em que medida os modelos ecumênicos contemporâneos influenciaram a linguagem e a arquitetura da reforma romana.
Por que, então, a mudança precisou ser tão grande? O Concílio Vaticano II pediu a revisão de partes da liturgia, maior acesso às Escrituras, participação consciente dos fiéis, simplificação de duplicações e possibilidade mais ampla do vernáculo. Também declarou que o latim deveria ser conservado, que o canto gregoriano ocupava lugar principal e, no número 23 da Sacrosanctum Concilium, determinou que não se introduzissem inovações sem uma utilidade autêntica e certa para a Igreja, cuidando para que as novas formas surgissem organicamente das já existentes. Entretanto, a aplicação posterior não se limitou a traduzir, restaurar leituras, aperfeiçoar rubricas ou retirar repetições menores. O Consilium dividiu o trabalho entre grupos de especialistas, realizou experiências, elaborou novos textos, reorganizou o ano litúrgico, substituiu o Ofertório, criou três Orações Eucarísticas, alterou o rito da Comunhão e suprimiu cerimônias completas. O próprio Paulo VI, na audiência de 26 de novembro de 1969, apresentou o que estava prestes a ocorrer como uma novidade e uma mudança de grande alcance; reconheceu que as pessoas piedosas seriam as mais perturbadas, que palavras e gestos deixariam de possuir a identidade habitual e que a substituição do latim representava um grande sacrifício. Isso não é linguagem empregada para uma alteração quase imperceptível. Os reformadores desejavam participação exterior mais intensa, compreensão imediata, variedade bíblica, adaptação pastoral e aproximação ecumênica. Algumas dessas finalidades poderiam justificar reformas prudentes. A dificuldade está na proporção entre os objetivos anunciados e os meios utilizados: para tornar certas partes compreensíveis, foi reconstruído o conjunto; para recuperar elementos antigos, foram eliminadas orações que já possuíam muitos séculos; para favorecer a participação, enfraqueceram-se o silêncio e os gestos pelos quais gerações haviam participado; e, para simplificar o rito, introduziu-se uma multiplicidade de opções até então desconhecida no Ordinário romano.
As perguntas finais, portanto, não podem ser evitadas. Se o Concílio pediu que o latim fosse conservado, por que ele praticamente desapareceu da vida paroquial? Se determinou que as novas formas crescessem das existentes, por que foram inteiramente suprimidos as orações aos pés do altar, o Ofertório tradicional, o Placeat tibi e o último Evangelho? Se o Cânon Romano havia alimentado os santos durante tantos séculos e Paulo VI reconhecia que sua organização essencial remontava a São Gregório Magno, por que ele deixou de ser o coração invariável do rito para tornar-se uma opção frequentemente abandonada? Se os leigos já participavam mediante respostas, canto, missais, posturas, Comunhão e união interior ao Sacrifício, por que se difundiu a narrativa de que antes eles eram apenas espectadores? Por que a antiga distinção entre Missa rezada, cantada, solene e pontifical deixou de organizar a celebração? Por que observadores protestantes foram consultados e por que aparecem tantas convergências entre a nova ordem e experiências ecumênicas como a de Taizé? A Missa de São Pio V não surgiu pronta em 1570: ela chegou até aquele missal depois de séculos de crescimento, recebendo orações, cantos e cerimônias que foram testados pela fé e pela prática da Igreja antes de serem universalizados. O Missal de Paulo VI percorreu caminho diferente: foi preparado por grupos de especialistas durante poucos anos, promulgado como um conjunto completo e então entregue às paróquias para que fosse recebido. A autoridade do papa para regulamentar a liturgia e a validade sacramental do novo missal não transformam automaticamente esse processo em desenvolvimento orgânico. Legalidade responde a quem possuía poder para promulgar; organicidade pergunta como a nova forma nasceu da anterior. Diante da substituição simultânea de orações, rubricas, calendário, lecionário, Ofertório, Cânon, gestos e encerramento, a conclusão mais coerente é que não ocorreu uma evolução comparável àquela que conduziu ao Missal de Pio V, mas uma reforma geral conscientemente construída. E permanece a questão que a Igreja ainda precisa enfrentar com serenidade: se aquilo que foi sagrado para tantas gerações permanece sagrado também para nós, como ensinou Bento XVI, por que foi necessário afastá-lo quase inteiramente para construir em seu lugar uma forma tão diferente?
Fontes consultadas
- Concílio Vaticano II — Constituição Sacrosanctum Concilium, especialmente os números 14, 23, 36, 50, 51 e 116
- Paulo VI — Constituição Apostólica Missale Romanum, de 3 de abril de 1969
- Paulo VI — Audiência Geral de 26 de novembro de 1969 sobre a introdução do novo rito da Missa
- Pio XII — Encíclica Mediator Dei, especialmente os números 73, 95–99 e 177
- Congregação para o Culto Divino — Instrução Geral do Missal Romano
- Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos — Capítulo IV da Instrução Geral: diferentes formas de celebrar a Missa
- Missale Romanum de 1962 — edição latina digitalizada
- Ordinário da Missa conforme o Missal Romano de 1962, em latim e inglês
- São Pio V — Constituição Apostólica Quo primum, de 1570
- Concílio de Trento — Sessão XXII sobre o Santo Sacrifício da Missa
- Dom Fernand Cabrol — História da Missa e dos ritos ocidentais
- Bento XVI — Carta aos bispos que acompanha o Summorum Pontificum
- Comunidade de Taizé — História e origem da comunidade ecumênica
- Communauté de Taizé e Max Thurian — The Eucharistic Liturgy of Taizé, Faith Press, 1962
- Annibale Bugnini — The Reform of the Liturgy, 1948–1975
- Yves Chiron — Annibale Bugnini: Reformer of the Liturgy
- Michael Davies — Pope Paul’s New Mass
- Dom Alcuin Reid — The Organic Development of the Liturgy
- Joseph Ratzinger — Prefácio à obra de Monsenhor Klaus Gamber sobre a reforma da liturgia
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