31/07/2026 · 9 min de leitura
Leão XIV e a Missa Tridentina: quem governa a Igreja?
“Quando um prefeito de dicastério anuncia o que o Papa decidirá, enquanto consultas permanecem escondidas e a sinodalidade dissolve responsabilidades, a pergunta já não é apenas litúrgica: quem governa realmente a Igreja?”
1. Arthur Roche falou antes de Leão XIV
O cardeal Arthur Roche, prefeito do Dicastério para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, afirmou que Leão XIV não modificará Traditionis Custodes nem restaurará o regime de liberdade litúrgica estabelecido por Bento XVI em Summorum Pontificum. A declaração é grave não somente pelo que diz sobre a Missa Tridentina, mas pela posição institucional de quem a pronunciou. Até agora, Leão XIV não publicou um documento próprio encerrando a questão. Roche, portanto, não explicou uma decisão papal já conhecida: antecipou aquilo que o Papa supostamente fará. Caso tenha falado por autorização direta, o pontífice deve assumir pessoalmente essa posição e explicar suas razões à Igreja; caso não tenha recebido tal autorização, o silêncio de Roma transforma a imprudência de um subordinado em aparente política pontifícia. Em ambos os casos, fica a impressão de que o prefeito fala e o Papa é colocado diante da obrigação de confirmar, mais tarde, aquilo que já foi anunciado em seu nome.[1]
2. Quando os dicastérios se comportam como pequenos pontificados
O episódio revela uma deformação maior no governo da Igreja. Os dicastérios existem para auxiliar o Romano Pontífice, não para ocupar o lugar de sua voz. Contudo, seus responsáveis aparecem cada vez mais como intérpretes definitivos da vontade papal: publicam notas, impõem leituras, concedem entrevistas, delimitam debates e anunciam o rumo que o pontificado deverá seguir. Talvez todas essas ações sejam aprovadas no alto; o problema é precisamente que os fiéis raramente conseguem distinguir a decisão pessoal do Papa da agenda de seus colaboradores. Surge uma espécie de pontificado difuso, no qual a autoridade suprema continua juridicamente concentrada em Pedro, mas sua manifestação concreta é distribuída entre burocratas que ninguém pode corrigir sem parecer estar atacando o próprio pontífice. O Papa permanece protegido pelo silêncio; os prefeitos governam por interpretações; e a responsabilidade, que deveria ser clara, dissolve-se dentro da máquina curial.
3. A carta que revela uma extinção administrada
A postura de Roche não nasceu em julho de 2026. Em carta enviada ao cardeal Vincent Nichols em 4 de agosto de 2021, ele afirmou que o Missal anterior havia sido ab-rogado por Paulo VI e descreveu as permissões relativas ao Missal de 1962 como concessões excepcionais, concedidas sem intenção de promovê-lo. Mais reveladora ainda foi sua orientação de que os fiéis firmemente ligados à liturgia tradicional deveriam ser acompanhados em direção ao Missal de Paulo VI e João Paulo II. Essa linguagem desmonta a alegação de que Traditionis Custodes serviria apenas para corrigir abusos ou impedir instrumentalizações ideológicas. O objetivo indicado não é preservar duas formas em convivência pacífica, mas conduzir uma delas ao desaparecimento. Impedem-se novos grupos, restringem-se lugares, dificultam-se autorizações, subordinam-se bispos a Roma e espera-se que o tempo conclua aquilo que um decreto frontalmente abolicionista tornaria escandalosamente evidente. Não é simples regulamentação: é uma extinção administrada.[2]
4. Bento XVI tornou-se o obstáculo que precisa ser apagado
Essa política colide com o ensinamento e a disciplina de Bento XVI. Ao acompanhar Summorum Pontificum, o papa alemão afirmou que o Missal de 1962 nunca fora juridicamente ab-rogado e recordou que aquilo que as gerações anteriores consideraram sagrado não poderia tornar-se repentinamente proibido ou nocivo. A posição de Roche segue a direção oposta: o que Bento apresentou como patrimônio vivo da Igreja é tratado como concessão excepcional; o que deveria conservar seu lugar é colocado numa trajetória de desaparecimento; os fiéis que deveriam receber cuidado pastoral são acompanhados para abandonar aquilo que amam. Não se trata apenas de Francisco ter substituído uma norma de Bento por outra. Há uma tentativa mais profunda de substituir a própria interpretação da continuidade litúrgica: Bento é aceito quando fala genericamente de tradição viva, mas rejeitado quando essa tradição viva exige que o rito antigo não seja tratado como corpo estranho dentro da Igreja.[3]
5. O relatório de Roche transformou uma preferência em programa
O documento distribuído por Roche aos cardeais no consistório de janeiro de 2026 confirmou que sua posição não era circunstancial. Nele, o prefeito voltou a apresentar os livros litúrgicos posteriores ao Concílio como a única expressão da lex orandi do Rito Romano e sustentou que as permissões dadas desde João Paulo II nunca tiveram a finalidade de promover a liturgia anterior. A Missa Tridentina aparece, nessa lógica, não como uma herança a ser transmitida, mas como uma situação residual a ser encerrada. Mesmo sem ter sido debatido formalmente pelo consistório, o texto revela a existência de um programa curial coerente: interpretar o passado como ab-rogação, o presente como concessão e o futuro como desaparecimento. Quando o mesmo cardeal declara, meses depois, que Leão XIV não voltará a Summorum Pontificum, torna-se legítimo perguntar se ele está comunicando a decisão do novo Papa ou tentando aprisioná-lo dentro de uma agenda que o dicastério já vinha executando antes de sua eleição.[4]
6. A consulta episcopal escondida compromete a narrativa oficial
A justificativa de Traditionis Custodes ficou ainda mais frágil depois do vazamento de documentos ligados à consulta mundial feita aos bispos em 2020. Francisco disse que as respostas recebidas o haviam preocupado e entristecido, apresentando-as como uma das razões para restringir a liturgia tradicional. Os textos conhecidos, porém, indicaram um quadro muito menos favorável à repressão: muitos bispos estavam satisfeitos com Summorum Pontificum, reconheciam frutos pastorais e advertiam que uma mudança poderia produzir mais mal do que bem. A Santa Sé respondeu que os documentos vazados eram parciais e incompletos e que outras informações haviam sido consideradas. Mas não publicou o conjunto que permitiria verificar essa explicação. Roma invocou a consulta quando ela servia para legitimar a decisão e invocou o segredo quando o conteúdo conhecido começou a contradizer a narrativa apresentada aos fiéis. Não é necessário acusar Francisco de mentira para reconhecer uma grave falta de transparência institucional.[5][6]
7. A sinodalidade que escuta somente o resultado conveniente
Essa opacidade atinge diretamente a credibilidade da sinodalidade. A Igreja é convocada a ouvir, discernir, consultar e caminhar conjuntamente; contudo, no caso da Missa tradicional, a escuta parece ter valor apenas quando confirma a conclusão desejada. Se bispos e fiéis pedem mudanças progressistas, a resposta costuma ser a abertura de novos processos, grupos de estudo e etapas de discernimento. Se pedem a conservação de um patrimônio litúrgico venerado durante séculos, recebem permissões temporárias e uma estratégia orientada para seu desaparecimento. Os tradicionalistas não são ouvidos para que se descubra se o rito deve permanecer; são ouvidos para que se encontre a maneira pastoralmente mais eficiente de conduzi-los a abandoná-lo. A autoridade papal não depende de pesquisas de opinião, mas a honestidade exige que uma consulta não seja usada como ornamento legitimador quando seus resultados permanecem ocultos ou parecem inconvenientes.
8. Sinodalidade no discurso, burocracia no governo
O processo sinodal continuará com assembleias diocesanas, nacionais e continentais até uma assembleia eclesial no Vaticano em outubro de 2028. Os documentos oficiais preservam formalmente a responsabilidade dos bispos e afirmam que a sinodalidade não é um parlamento. A preocupação nasce da dinâmica prática: multiplicam-se equipes, relatórios, moderadores, metodologias e estruturas intermediárias capazes de definir antecipadamente quais perguntas serão feitas e quais respostas serão consideradas aceitáveis. No alto, os dicastérios concentram poder e interferem até nas autorizações concedidas pelos bispos; embaixo, sacerdotes e pastores são incentivados a atuar como facilitadores de processos. É uma combinação especialmente perigosa: centralização quando Roma deseja impor e descentralização retórica quando ninguém quer assumir pessoalmente a responsabilidade pelo resultado. O poder não desaparece; torna-se menos visível e mais difícil de responsabilizar.[7][8]
9. Para o progressismo, escuta; para a Tradição, disciplina
A desigualdade de critérios tornou-se impossível de ignorar. Ideias que em outros tempos encontrariam uma resposta doutrinal direta reaparecem como experiências que precisam ser acolhidas, acompanhadas e ouvidas com atenção. Os limites não são formalmente negados; são submetidos a processos indefinidos, nos quais a prática pode mudar antes que alguém admita uma mudança de princípio. Com a tradição litúrgica ocorre o contrário: não há processo aberto, possibilidade real de revisão ou presunção de legitimidade. Há vigilância, restrições e a exigência de que seus fiéis provem continuamente que não constituem ameaça à Igreja. Para a novidade, paciência ilimitada; para a Tradição, tolerância provisória. A rigidez denunciada em tantos discursos reaparece justamente contra sacerdotes e leigos que pedem apenas aquilo que Bento XVI reconheceu como parte venerável da vida católica.
10. É necessário que Pedro volte a governar visivelmente
A unidade da Igreja não será restaurada por comunicados que silenciam comunidades, por consultas que permanecem escondidas ou por prefeitos que falam antes do Papa. Tampouco nascerá de assembleias intermináveis que diluem a missão dos pastores e transformam decisões de fé e governo em processos sem responsável identificável. Leão XIV precisa deixar claro se Arthur Roche falou em seu nome. Se deseja manter Traditionis Custodes, deve assumir a decisão, apresentar suas razões e responder às contradições documentais acumuladas desde 2021. Se ainda não decidiu, deve impedir que um subordinado transforme a própria agenda em sentença antecipada do pontificado. A Igreja não precisa de pequenos papas instalados nos dicastérios nem de sacerdotes reduzidos a moderadores paroquiais. Precisa que o sucessor de Pedro confirme os irmãos, governe com clareza e proteja a unidade sem destruir aquilo que recebeu como herança. Enquanto a novidade é recebida com escuta e a Tradição é tratada como suspeita, a crise continuará a aprofundar-se — não apesar do discurso sobre unidade, mas em nome dele.
Referências
[1] INFOVATICANA. Roche assegura que Leão XIV não reverterá as restrições à Missa tradicional. 30 jul. 2026. Disponível em: https://infovaticana.com/pt/2026/07/30/roche-asegura-que-leon-xiv-no-revertira-las-restricciones-a-la-misa-tradicional/.
[2] NATIONAL CATHOLIC REGISTER. Vatican Liturgy Chief: Traditional Latin Mass ‘Abrogated by Pope St. Paul VI’. 8 nov. 2021. Disponível em: https://www.ncregister.com/cna/vatican-liturgy-chief-traditional-latin-mass-abrogated-by-pope-st-paul-vi.
[3] BENTO XVI. Carta aos bispos que acompanha a Carta Apostólica Summorum Pontificum. Vaticano, 7 jul. 2007. Disponível em: https://www.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/letters/2007/documents/hf_ben-xvi_let_20070707_lettera-vescovi.html.
[4] GAZETA DO POVO. Relatório do cardeal Roche sobre liturgia está cheio de problemas. 20 jan. 2026. Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/marcio-antonio-campos/relatorio-arthur-roche-liturgia-missa-tridentina-consistorio/.
[5] ACI DIGITAL. Documentos vazados sobre missa em latim são parciais e incompletos, diz Santa Sé. 3 jul. 2025. Disponível em: https://www.acidigital.com/noticia/63475/documentos-vazados-sobre-missa-em-latim-sao-parciais-e-incompletos-diz-santa-se.
[6] FRANCISCO. Carta aos bispos que acompanha Traditionis Custodes. Vaticano, 16 jul. 2021. Disponível em: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/letters/2021/documents/20210716-lettera-vescovi-liturgia.html.
[7] SECRETARIA-GERAL DO SÍNODO. Rumo à Assembleia Eclesial de outubro de 2028. Vaticano, 20 maio 2026. Disponível em: https://www.synod.va/en/news/towards-the-ecclesial-assembly-of-october-2028.html.
[8] LEÃO XIV. Consistório extraordinário. Vaticano, 27 jun. 2026. Disponível em: https://www.vatican.va/content/leo-xiv/pt/speeches/2026/giugno/documents/20260627-concistoro-straordinario.html.
[9] INFOVATICANA. Tribuna: Sinodalidade contra sacerdócio. 30 jul. 2026. Disponível em: https://infovaticana.com/pt/2026/07/30/tribuna-sinodalidade-contra-sacerdocio/.
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