08/07/2026 · 7 min de leitura
FSSPX excomungada por Roma: o rigor seletivo do Vaticano diante das sagrações e das bênçãos progressistas
“As sagrações da FSSPX, a resposta imediata do Dicastério para a Doutrina da Fé e a estranha diferença de tratamento entre a Tradição perseguida e o progressismo tolerado.”
No dia 1º de julho de 2026, a Fraternidade Sacerdotal São Pio X consumou em Écône a sagração de quatro novos bispos: Pascal Schreiber, Michael Goldade, Michel Poinsinet de Sivry e Marc Hanappier. O consagrante principal foi Dom Alfonso de Galarreta, tendo Dom Bernard Fellay como co-consagrante. Não se trata de um ato pequeno, nem de mera divergência administrativa: uma sagração episcopal sem mandato pontifício toca diretamente a unidade visível da Igreja e, por isso, sempre deveria ser julgada com gravidade. O próprio Vatican News registrou que o ato foi realizado sem mandato pontifício e recordou que, segundo o direito canônico, tal consagração incorre em excomunhão latae sententiae [1].
No dia seguinte, 2 de julho, o Dicastério para a Doutrina da Fé, sob assinatura do cardeal Víctor Manuel Fernández, publicou o decreto de excomunhão. O texto declarou que Dom Alfonso de Galarreta e os quatro novos bispos incorreram nas penas previstas pelos cânones 1387 e 1364 §1, e que Dom Bernard Fellay, por participar diretamente como co-consagrante e aderir publicamente ao ato, também incorreu na excomunhão prevista para o cisma [2]. O Vatican News explicou que a decisão veio apenas vinte e quatro horas depois da cerimônia e afirmou que a excomunhão separa novamente os bispos e sacerdotes da Fraternidade de Roma, advertindo também os leigos que aderirem formalmente ao cisma [3]. Aqui está o primeiro ponto de tensão: Roma tinha base canônica para reagir, mas a velocidade, a amplitude e o peso público da sanção contrastam com a lentidão aplicada a outros desvios muito mais tolerados.
A FSSPX respondeu por meio de carta de Dom Davide Pagliarani a Leão XIV, afirmando que sua ação seria uma “iniciativa extraordinária para a salvação das almas” em meio à confusão doutrinal e moral na Igreja. Na mesma carta, Pagliarani declarou que a Fraternidade não pretende substituir a Igreja e chamou as sanções de “objetivamente injustas e inválidas” [4]. É possível discordar da decisão da Fraternidade, e este artigo não pretende justificar sagrações contra a vontade expressa do Romano Pontífice; mas também é impossível ignorar o drama pastoral real de muitos fiéis que procuram liturgia reverente, doutrina clara, confissão frequente e formação católica sólida. A pergunta incômoda é esta: por que, quando a ferida vem da Tradição, a resposta é imediata e medicinalmente dura, enquanto quando a ferida vem do progressismo, o vocabulário passa a ser diálogo, acompanhamento, discernimento e paciência histórica?
A incoerência ficou ainda mais evidente porque, no mesmo ciclo de notícias, veio à tona o caso do cardeal Timothy Radcliffe. A Redação da InfoVaticana noticiou em 2 de julho que Radcliffe e dois bispos eméritos participaram de uma Missa de ação de graças pelo aniversário de 50 anos de Julian Filochowski e Martin Pendergast, casal gay civilmente unido, e que ao final houve uma bênção formal da dupla dentro do contexto litúrgico [5]. Antonino Cambria, na LifeSiteNews, já havia criticado o episódio no dia 1º de julho, afirmando que Radcliffe destacou os supostos “bons frutos” da relação do casal e tratando o caso como sinal de heterodoxia pública [6]. Até mesmo a fonte favorável ao evento, Francis DeBernardo, do New Ways Ministry, descreveu a celebração como “Mass of Thanksgiving for 50 Years of Friendship, Partnership, and Commitment in the Pursuit of Justice”, com mais de 150 participantes reunidos na Holy Apostles Church, em Londres [7]. O contraste é gritante: contra Écône, decreto; contra uma celebração que parece transformar uma união irregular em ocasião litúrgica de ação de graças, silêncio disciplinar.
Esse ponto não é mera implicância conservadora, porque o próprio Dicastério já havia fixado limites em Fiducia supplicans. O documento afirma que permanece firme a doutrina tradicional sobre o matrimônio e que não se permite rito litúrgico ou bênção semelhante a rito litúrgico que gere confusão [8]. Em janeiro de 2024, o mesmo Dicastério esclareceu que as bênçãos pastorais deveriam ser breves, simples, não ritualizadas, sem livro próprio, sem formato litúrgico, sem aprovação da situação e sem legitimar a vida que as pessoas levam [9]. Logo, quando uma Missa é organizada para celebrar publicamente décadas de “parceria e compromisso” de um casal gay, e quando a bênção ocorre com texto fixo e dentro do ambiente litúrgico, a pergunta se impõe: o Dicastério exige obediência literal de uns e permite criatividade pastoral quase ilimitada a outros?
A Alemanha amplia ainda mais essa percepção de rigor seletivo. Em maio de 2026, a OSV News registrou que o Vaticano continuava em diálogo com os bispos alemães sobre o vademecum de bênçãos para casais em uniões irregulares e do mesmo sexo, e citou o cardeal Pietro Parolin dizendo que era “prematuro falar de sanções” [10]. Ao mesmo tempo, a Santa Sé reconhecia que o guia alemão parecia contradizer Fiducia supplicans ao legitimar, na prática, o estado dessas uniões [10]. Some-se a isso a cordial recepção de Sarah Mullally, primeira mulher a chefiar a Comunhão Anglicana, recebida por Leão XIV em abril como interlocutora ecumênica, com oração conjunta e apelo a superar diferenças [11]. É verdade que uma arcebispa anglicana não está submetida à disciplina interna católica como um bispo da FSSPX; mas o sinal público permanece desconcertante: com anglicanos que aceitaram ordenação feminina, com alemães que pressionam por bênçãos formalizadas e com agentes progressistas que tensionam a moral católica, Roma dialoga; com tradicionalistas irregulares, Roma corta.
O desfecho desta crise, portanto, não pode ser lido apenas como uma disputa canônica entre Roma e a FSSPX. Jimmy Akin, da Catholic Answers, reconheceu que a Fraternidade “ordenou novos bispos, voltou ao cisma e incorreu em excomunhão”, mas também observou que a nota explicativa do DDF, ao tratar da invalidade de confissões e matrimônios, parece funcionar mais como interpretação do Dicastério do que como ato jurídico plenamente autônomo [12]. Niwa Limbu, no AdVaticanum, relatou ainda que o cardeal Gerhard Müller contradisse a posição atribuída a Fernández sobre as confissões da FSSPX, afirmando que seriam válidas, embora ilícitas [13]. Eis o núcleo do problema: a unidade da Igreja não pode ser uma palavra usada para separar uns e poupar outros; não pode ser martelo contra a Tradição e algodão contra a revolução pastoral que se alastra da Alemanha ao restante do progressismo eclesial. Se Roma deseja curar a ferida, precisa mostrar que sua régua é a mesma para todos: firme contra o cisma, sim; mas igualmente firme contra a confusão doutrinal, a bênção ritualizada de uniões irregulares e toda tentativa de trocar a conversão pela acomodação.
Referências
[1] Vatican News — Lefebvrians consecrate four new bishops without a papal mandate: https://www.vaticannews.va/en/church/news/2026-07/lefebvrists-consecrate-four-new-bishops-without-a-papal-mandate.html
[2] Dicastério para a Doutrina da Fé — Decreto de Excomunhão referente à FSSPX, 2 de julho de 2026: https://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_ddf_doc_20260702_decreto-scomunica-fsspx_it.html
[3] Vatican News — Excommunication decreed for Lefebvrite episcopal ordinations: https://www.vaticannews.va/en/vatican-city/news/2026-07/holy-see-decrees-excommunication-lefebrians-consecrations.html
[4] FSSPX News — Dom Davide Pagliarani, Letter to the Holy Father regarding the Decree of the Dicastery for the Doctrine of the Faith: https://fsspx.news/en/news/letter-holy-father-regarding-decree-dicastery-doctrine-faith-59956
[5] InfoVaticana — Redação, El cardenal Radcliffe y dos obispos bendicen a una pareja homosexual y celebran una Misa de acción de gracias por su aniversario: https://infovaticana.com/2026/07/02/el-cardenal-radcliffe-y-dos-obispos-bendicen-a-una-pareja-homosexual-y-celebran-una-misa-de-accion-de-gracias-por-su-aniversario/
[6] LifeSiteNews — Antonino Cambria, Cardinal Radcliffe concelebrates Mass honoring 50th anniversary of homosexual ‘friendship’: https://www.lifesitenews.com/news/cardinal-radcliffe-concelebrates-mass-honoring-50th-anniversary-of-homosexual-friendship/
[7] New Ways Ministry — Francis DeBernardo, Gay Men’s 50 Years of Partnership Celebrated with Catholic Mass: https://www.newwaysministry.org/2026/07/01/gay-mens-50-years-of-partnership-celebrated-with-catholic-mass/
[8] Dicastério para a Doutrina da Fé — Fiducia supplicans, 18 de dezembro de 2023: https://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_ddf_doc_20231218_fiducia-supplicans_en.html
[9] Dicastério para a Doutrina da Fé — Press release concerning the reception of Fiducia supplicans, 4 de janeiro de 2024: https://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_ddf_doc_20240104_comunicato-fiducia-supplicans_en.html
[10] OSV News — Vatican continues dialogue with German bishops regarding blessing for same-sex couples, cardinal says: https://www.osvnews.com/vatican-continues-dialogue-with-german-bishops-regarding-blessing-for-same-sex-couples-cardinal-says/
[11] Vatican News — Devin Watkins, Pope: Anglicans and Catholics must continue working to overcome differences: https://www.vaticannews.va/en/pope/news/2026-04/pope-leo-xiv-audience-archbishop-sarah-mullally.html
[12] Catholic Answers — Jimmy Akin, What Went Down with the SSPX: https://www.catholic.com/magazine/online-edition/what-went-down-with-the-sspx
[13] AdVaticanum — Niwa Limbu, Cardinal Müller contradicts Cardinal Fernández on validity of SSPX confessions: https://advaticanum.com/article/cardinal-muller-contradicts-cardinal-fernandez-on-validity-of-sspx-confessions/